Vasco Martins: Lisboa "é local certo" para estreia de Crioulo

O compositor caboverdiano Vasco Martins afirma que Lisboa "é o local certo, histórico e culturalmente" para estreia da sua ópera "Crioulo", sexta-feira, por se inspirar na escravatura africana.
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A ópera dançada Crioulo, com libreto de Vasco Martins e encenada pelo bailarino caboverdiano António Tavares, será estreada sexta-feira no Centro Cultural de Belém (CCB) numa nova versão da que foi apresentada em 2002 em Cabo Verde no âmbito do evento "Mindelo Capital Lusófona da Cultura".

"Quando escrevi a ópera nunca pensei que seria estreada em Lisboa: só o soube em 2007 quando o meu amigo Vina me telefonou entusiasta de Lisboa e me anunciou que o senhor Mega Ferreira tinha aceite Crioulo para as Temporadas de Ópera no CCB. Faz-me lembrar a frase do Milarepa, o grande poeta tibetano: 'tudo estava traçado: olhem ao que levou'", disse à agência Lusa.

"Crioulo" parte da obra sinfónica "Lágrimas na Paraise", que foi executada em Paris e Cabo Verde em 1994, em resultado de uma encomenda da Universidade Paris 8, com o Alto Patrocínio da UNESCO, para as comemorações dos 200 anos da primeira lei de abolição da escravatura.

Vasco Martins confessou à agência Lusa tratar-se de "uma ópera nova", que nesta versão de Lisboa surge com abertura orquestral, uma escrita mais elaborada para a voz soprano (nesta versão a duas vozes: da soprano Carla Simões e da Sara Tavares), partes e temas inéditos, e com a revisão da parte do coro.

Sobre o tema da escravatura, que inspira a obra, realça que dessa cultura de violência nasceram outras culturas, uma delas a cabo-verdiana, de que ele próprio é resultado.

"'Crioulo" aponta para toda a cultura que proveio do tráfico dos escravos africanos. É essa a ideia subjacente, mas devo dizer que não aprovo este tipo de revolteios históricos. É uma partitura que desejei também épica e com esperança, porque formou civilizações e povos", afirma.

Género único na sua obra multifacetada, "Crioulo" deverá manter-se a excepção, pois diz ser a sinfonia a sua forma mais comum de expressão e que esta ópera o ocupou 12 anos de maturação criativa.

Romancista, poeta, musicólogo e compositor, Vasco Martins nasceu em Portugal em 1956, de pai cabo-verdiano e mãe algarvia, e fixou-se aos nove anos em S. Vicente, onde reside.

O longo da sua carreira de mais de duas décadas compôs nove sinfonias, e com "Danças de Câncer" (suite para orquestra sinfónica), composta entre 1989 e 1991, granjeou o estatuto de primeiro compositor africano com uma obra sinfónica reconhecida internacionalmente.

Mas a sua obra, com mais de duas dezenas de discos gravados, estende-se também à música electrónica e tradicional, tendo composto e produzido o disco de mornas "Coraçon Leve", que em 1998 lançou a cantora Hermínia.

Para a cantora luso-francesa Bévinda musicou para duo de violoncelos poemas de Fernando Pessoa "pessoa em pessoas" (1997). Com o cabo-verdiano Voginha gravou, a duas guitarras, os disco "Dôs" (1996) e "Vivências ao Sol" (1986), onde exploram as improvisações e fazem incursões pelo jazz, fado, bossa nova, flamenco e música tradicional.

No domínio do jazz fez duo com o saxofonista português Carlos Martins para gravar "Outras Índias", em 1997. A sua obra para guitarra clássica foi editada no Canadá.

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